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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A Morte de Hitler

Em recente exposição organizada em Moscou, as autoridades russas expuseram uma parte superior do que se supõe ser o crânio de Adolf Hitler, ditador da Alemanha entre 1933 e 1945, que se suicidou no dia 30 de abril de 1945. Leia sobre os últimos dias que antecederam a sua morte.

"Se não chegarmos a triunfar não nos restaria senão, ao soçobrarmos, arrastar conosco metade do mundo neste desastre". - Hitler a H.Rauschning, "Gesprache".

O ambiente no bunker era tenso, sufocante. Faziam mais de cem dias, entre entradas e saídas, que um pequeno grupo de funcionários, oficiais e oligarcas nazistas, estavam lá entocados como lobos acuados ao redor de Adolf Hitler. Construída nos jardins da Chancelaria do Reich, em Berlim, a casamata tinha a função de protegê-los dos ataques aéreos aliados que devastavam a capital da Alemanha. Acentuando ainda mais a situação troglodita e claustofóbica em que viviam, chegou-lhes a notícia que o Exército Vermelho estava às portas. No dia 18 de abril de 1945, um colossal vagalhão blindado de tanques, canhões e aviões, esparramou dois milhões e meios de soldados russos para as cercanias da cidade. Mais de um milhão deles combateram uma espetacular batalha de ruas, contra as derradeiras forças da resistência alemã. Ao preço de 300 mil baixas, os soviéticos penetraram-na por todos os lados.

A última aparição de Hitler
Hitler ainda recebeu alguns convidados mais próximos para seu aniversário em 20 de abril. Há uma foto dele na ocasião. Com a gola do capote levantada, ele cumprimenta, do lado de fora da Chancelaria do Reich destruída, alguns jovens garotos da juventude nazista que haviam se destacado na defesa desesperada da cidade. O Führer estava uma ruína humana. Os últimos acontecimentos haviam-lhe retirado a seiva. Sua tez acinzentou-se, o rosto encovou-se e os olhos adquiriram uma opacidade de semimorto. Para consolá-lo e sacudi-lo da letargia depressiva em que se encontrava, Joseph Gobbels, seu Ministro da Propaganda, lia-lhe diariamente trechos da "História de Frederico o Grande", de Carlyle, especialmente a passagem onde é narrada a milagrosa salvação daquele capitão-de-guerra prussiano na Guerra dos Sete Anos (1756-63), que escapou do destino dos derrotados devido a um desacerto ocorrido entre seus inimigos.
A determinação de ficar ali e travar a batalha final foi tomada numa reunião no dia 22. Inspirando-se na tradição nórdica do herói que morre solitariamente num último combate, ou no sepultamento do guerreiro viquingue incinerado no seu barco de comando, Hitler comunicou a todos a intenção de comandar pessoalmente as operações. Recebeu, porém, telefonemas de alguns seguidores e de outros generais que instaram para que se retirasse enquanto havia tempo. O Führer manteve-se intransigente. Ninguém o arrastaria para fora da liça.

O atentado de 20 de julho e o desencanto
Uma das razões, mais remotas, da aparência cinzenta e desencantada de Hitler, resultou do choque que ele teve, nove meses antes, do atentado cometido contra a sua vida. Naquela ocasião, no dia 20 de julho de 1944, um grupo de conspiradores, quase todos altos membros da hierarquia militar e integrantes da nobreza alemã, conseguiram fazer com que o coronel do estado maior Claus Schenk von Stauffenberg, colocasse uma bomba no quartel-general do Alto Comando. O artefato explodiu na sala de reuniões onde Hitler estava presente, mas apenas provocou pequenas escoriações nele. Refeito do susto, o ditador ordenou uma caçada em massa contra todos os envolvidos, que terminaram executados depois de serem sumariamente condenados à morte num Tribunal Popular. O outro motivo que levou Hitler a desejar suicidar-se, e em seguida ser incinerado, decorreu da notícia que ele recebeu do destino infausto do ditador fascista Benito Mussolini. O Duce fora capturado em Dongo, no norte da Itália, por partisans comunistas, e seu corpo foi exposto, pendurado de cabeça para baixo num posto de gasolina em Milão, junto ao da sua amante Claretta Petacci, em 28 de abril de 1945. Hitler temia que seu cadáver fosse profanado ou levado como troféu de guerra para a URSS.

O casamento e uma traição
Poucos dias depois de ter tomado a decisão definitiva, resolveu formalizar sua união com Eva Braun, encomendando um casamento de emergência dentro do abrigo. O casal decidira por fim à vida juntos. Hitler tinha-se mantido solteiro, até então, em nome da mística que sua solitária figura messiânica exercia sobre o povo alemão. O salvador não poderia ser um homem comum, com esposa e filhos, envolvido pela contabilidade doméstica, e na rotina matrimonial burguesa.
Teve ainda um espumante ataque de fúria quando soube (ele, mesmo nos estertores, ainda era informado de tudo), que Heinrich Himmler, o Reichsführer SS, havia, às suas costas, à socapa, contatado com o legatário sueco, o conde Bernadotte, para negociar uma paz em separado com os exércitos ocidentais, que avançavam Alemanha a dentro vindos do Rio Reno. Numa das suas derradeiras ordens, determinou a expulsão sumaria dele do Partido Nazista, exonerando-o de todos os cargos de chefia. Mas aquela altura de nada adiantava.

O momento final
No dia 29 de abril, deu-se a reunião final. O General Weidling, governador militar de Berlim, e comandante da LVI Panzer Corps, ainda aventou a possibilidade de uma escapada pelas linhas soviéticas, mas Hitler o dissuadiu. Não tinham nem tropas, nem equipamento, nem munições, para qualquer tipo de operação. Era ficar e morrer!
O Führer então despediu-se formalmente das pessoas mais próximas que ainda o seguiam até aquele momento. Pressentindo o suicídio, os que estavam no bunker reagiram de uma maneira inesperada. Muitos, após colocarem discos na vitrola, puseram-se a dançar e alegremente, confraternizaram com os demais, como se um esmagador peso, repentinamente, tivesse sido removido de cima deles. O fascínio de feiticeiro que Hitler exercera sobre eles cessara como que por encanto.
Depois do almoço, no dia 30 de abril, trancou-se com Eva Braun nos seus aposentos. Ouviu-se apenas um tiro. Quando lá penetraram encontraram-no com a cabeça estraçalhada à bala e com a pistola caída no colo. Em frente a ele, em languidez de morta, estava Eva Braun, sem nenhum ferimento visível. Ela ingerira cianureto, um poderosíssimo veneno. Eram 15:30 horas! Rapidamente os dois corpos, envolvidos num encerado, foram removidos para o pátio e, com o auxilio de 180 litros de gasolina que os embeberam, formaram, incendiados, uma vigorosa pira. Ao redor deles, uma silenciosa saudação fascista prestou-lhes a homenagem derradeira.

Berlim, o mausoléu de Hitler
Lá fora, a capital do IIIº Reich também ardia num colossal braseiro. Monumentos, prédios públicos, palácios, edifícios, casas, praças e avenidas, pareciam um entulho só. Os sobreviventes, apavorados com o terrível rugido dos canhões e das bombas, que lhes soavam como se fosse o acorde final do "Gotterdammerung", o wagneriano "Crepúsculo dos Deuses", acreditavam que a hora do apocalipse chegara. Berlim, com 250 mil prédios destruídos, virara um cemitério lunar. A grande cidade, transformada em ruínas, assemelhava-se a um fantástico mausoléu erguido pela barragem de fogo aliada para sepultar uma das monstruosidades do século. Hitler suicidara-se aos 56 anos, e o seu regime, que segundo seus propagandistas mais pretensiosos deveria ser o Reich de Mil Anos, naufragou com ele doze anos depois dele ter assumido a Chancelaria da república alemã, em janeiro de 1933.

Fonte: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/index_artigos.htm

Auschwitz foi demais!

"Desde muitos anos os anti-semitas do mundo inteiro nos vêm advertindo que o judaico projeta a destruição da humanidade. Pelo momento e enquanto espera essa misteriosa operação, o anti-semitismo se dedica a operação inversa, a única que se tem notícia efetiva. Em seis anos aniquilou-se mais da terceira parte da população judaica do mundo." - Ernesto Sábato - “Apologías y Rechazos”, 1990.

Quando as tropas do 60º Exército de Infantaria soviético comandadas pelo cel-general P. Kúrochkin, adentraram no campo de Auschwitz em Oswiecim na Polônia no dia 27 de janeiro de 1945, o mundo finalmente entendeu a que dimensões podia chegar a palavra horror. Não que a descoberta de campos de extermínio fosse uma novidade. Afinal, na ofensiva de verão de 1944, os soviéticos já havia se deparado com Maidaneck, perto de Lublin, espantando-se com o que encontraram. Espectros humanos vagam ali como sobreviventes, gente com pele sobre os ossos que mal esboçava sequer um agradecimento pela libertação. Nas trincheiras, ainda insepultos, empilhavam-se cadáveres esquálidos, enquanto que pelos pátios e galpões, pilhas de roupas, de malas, de cabelos e de óculos, serviam como testemunhos silenciosos daqueles que foram apresentados ao reino do inferno.

Mas a descoberta de Auschwitz, de fato, superou tudo o que haviam visto antes. Mesmo depois que os americanos, vindos pelo ocidente, chegaram a Buchnwald, Belsen ou Dachau, constatou-se que campo de Auschwitz superava tudo em matéria de horror. Assemelhava-se a uma bocarra de um vulcão assassino, construída pela mão do homem. Lá, mais de um milhão e meio de pessoas haviam perecido, sendo que a grande parte deles gaseados e incinerados em fornalhas que, segundo os testemunhos, não pararam nunca de funcionar.

Mesmo para o povo judeu que tinha em seu passado um assombroso histórico de martírios, de banimentos, de expulsões, de escravizações, de rebeliões sufocadas a ferro e a fogo, Auschwitz foi demais. Nenhuma malignidade anterior, por mais pervertida e perversa que fosse, poderia ter projetado aquilo. Mesmo entre os judeus, com seus profetas, seus messias, seus iluminados, nenhum dos seus reis, nenhum dos seus afamados rabinos, nenhum dos seus ficcionistas pôde prever a possibilidade de existir, algum dia, um campo como o de Auschwitz.

Nenhum dos inimigos históricos do povo judeu, como o orgulhoso e insano rei Nabucodonosor, como Antigono Epifanes, como o general Tito, como o Imperador Adriano ou o inquisidor Torquemada foram capazes sequer de esboçar algo tão terrífico como Auschwitz. Para os que acreditavam na inevitabilidade do progresso, no constante aperfeiçoamento ético dos seres humanos, na intrínseca bondade natural de todos nós, Auschwitz surge como a grande esfínge do século XX. Mostrou, entre tantas outras coisas, que apesar dos avanços espetaculares da nossa civilização, ela não estava livre de regressões tão primitivas, capazes de envergonhar inclusive quaisquer dos chefes bárbaros do passado.
Fonte: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/auschwitz.htm

domingo, 18 de setembro de 2011

A Fazenda Campos Novos


A fazenda de Campos Novos e sua história – séculos XVII e XVIII

Era o ano de 1630 quando os holandeses, movidos pela cobiça, tentaram aportar nas praias do litoral de Cabo Frio. Aguardavam-nos colonos e jesuítas que, não obstante fossem tradicionais inimigos em disputas pelo controle das populações indígenas, desta vez estavam unidos para combater os invasores. Acompanhava os padres da Companhia de Jesus um pequeno exército de índios oriundos do aldeamento de São Pedro do Cabo Frio, dispostos a morrer na luta contra os apóstatas. Segundo os relatos que nos chegaram, cerca de duzentos holandeses desceram de suas embarcações na tentativa de ocupar a terra para obter o controle da extração de vegetais da mata atlântica que tivessem valor comercial na Europa, dentre eles, o mais conhecido deles, sem dúvida, era o pau-brasil.
Em busca da madeira cor de brasa vieram também os ingleses em 1614, quando tentaram estabelecer uma feitoria na região. A ideia era carregar embarcações com o Pau-brasil contando para isto com o apoio dos índios Tamoios e Goitacases, inimigos dos portugueses estabelecidos na cidade do Rio de Janeiro. As autoridades locais ordenaram então, a Constantino de Menelau que estabelecesse na região um povoamento e que fosse criada uma fortaleza para impedir novas investidas estrangeiras. A fortaleza recebeu o nome de Santo Ignácio enquanto que a povoação foi denominada Santa Helena do Cabo Frio. A situação na região estava tão pouco definida, que o próprio Constantino de Menelau era um dos que lucravam graças ao seu envolvimento com os traficantes estrangeiros. Todavia, as coisas não saíram bem para ele, e quando se viu ludibriado pelo grupo, mudou de lado e colaborou para que os mesmos fossem presos. De aliados dos inimigos, passou a ser o principal defensor da região para os interesses coloniais e obteve, logo depois, o cargo de Governador de Cabo Frio. Em 1616, o Jesuíta João Lobato, superior da Aldeia de índios de São Barnabé, foi encarregado de cumprir a ordem real de estabelecer um aldeamento na região para impedir novos ataques. A preocupação com a região era tanta, que enquanto o jesuíta escolhia o local do aldeamento, em 20 de abril de 1617, o Capitão-Mor Martin de Sá, respondia uma carta do Rei Filipe II onde este lhe ordenava que descesse índios e os aldeasse em Cabo Frio. Ainda no ano de 1617, o aldeamento de São Pedro do Cabo Frio foi fundado com 500 índios vindos da Capitania do Espírito Santo, mais precisamente, do aldeamento da Reritiba (Anchieta) na localidade escolhida pelo religioso de São Barnabé, ou seja, em Jucuruna.
Depois de algumas tentativas frustradas em se estabelecer núcleos populacionais estáveis e em função de muitos problemas, no ano de 1630 esta região foi incorporada à Coroa e a capitania passou a ser denominada de Paraíba do Sul. As autoridades reiniciaram uma nova distribuição de sesmarias tanto para as ordens religiosas quanto para particulares. A idéia era aumentar o povoamento através do estabelecimento de fazendas, aldeamentos e vilas. Todavia, rapidamente, violentos conflitos pela posse da terra irromperam na região.1 Os jesuítas não perderam tempo e prontamente tiraram proveito da instabilidade local. Neste mesmo ano, talvez para não perderem o impacto da escaramuça vencida pelos índios do aldeamento sobre os holandeses, o Reverendo padre Francisco Fernandes, Reitor do Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro escreveu uma petição ao rei suplicando que fossem concedidas mais terras para que com elas os religiosos jesuítas pudessem aldear mais índios e consequentemente, manter a região cada vez mais protegida. Lembrava ao rei que sem os índios que comandavam e que só obedeciam a eles, a entrada de povos invasores ficaria muito fácil na área, uma vez que era longe da cidade do Rio de Janeiro e contava com enseadas de fácil acesso. A solução seria então, o aldeamento de mais nativos e a transformação deles em súditos reais. Sempre sob os cuidados espirituais deles, jesuítas. Os índios que comporiam este novo aldeamento, segundo o jesuíta, seriam provenientes do Aldeamento de São Pedro do Cabo Frio e outros vindos da capitania do Espírito Santo. O
governador deu despacho favorável a seus pedidos.2

1 FARIA, Maria Teresa Peixoto. Gênese da rede urbana no Norte e Noroeste Fluminense. In: CARVALHO, Ailton Mota de e TOTTI, Maria Eugenia Ferreira (org). Formação histórica e econômica do Norte Fluminense. Rio de Janeiro: Garamond, 2006. p. 69-97.
2 Petição e carta de sesmaria apresentada por Antonio Fagundes procurador do Reverendo Padre Reitor Francisco Fernandes em 20 de novembro de 1630. Livro de Tombo do Colégio de Jesus do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1968. p. 290 e ss. Note-se que desde o ano de 1627 a Capitania da Paraíba do Sul já estava dividida ente os Sete Capitães. Gonçalo Correa de Sá, Manuel Correia, Duarte Correia, Miguel da Silva Riscado, Miguel Ayres Maldonado, Antonio Pinto Pereira e João de Castilho.

Assim, neste ano de 1630, os jesuítas se estabeleceram em terras que ocupavam grande parte da área que hoje é conhecida como Região dos Lagos. Eles possuíam ou administravam em nome dos índios a sesmaria do aldeamento de São Pedro do Cabo Frio, mais duas localizadas em Iguna e na Ponta de Búzios, as terras onde estabeleceram a Fazenda de Campos Novos, a de Santa Anna, em Macaé e a maior de todas, a de Campos dos Goitacazes 3.
Atualmente, a Região dos Lagos é uma importante área de turismo do Estado do Rio de janeiro, mas no século XVII e seguinte, sua importância estava ligada a posição geográfica e a sua formação litorânea. Era uma área próxima o suficiente da cidade do Rio de Janeiro, com praias que permitiam o desembarque de embarcações estrangeiras, abrigava grupos de índios hostis ao projeto colonial português e que comercializavam com os inimigos da Coroa. Os objetivos principais das autoridades para esta região eram o estabelecimento de vilas e povoados capazes de abrigar pessoas que pudessem desbaratar os contatos travados entre os estrangeiros e os indígenas. Estes últimos deveriam ser pacificados, aldeados e transformados em súditos da Coroa Portuguesa, ou seja, aliados ou então, caso não aceitassem nenhuma destas possibilidades deveriam ser exterminados.
As grandes extensões de terras ocupadas pelos jesuítas nesta região provocaram inúmeros conflitos. Alguns nos meios legais e outros resolvidos nas escaramuças do dia-a-dia. Seja como for, o fato é que “Nestas terras, submetidas à administração do Colégio do Rio de Janeiro, os missionários investiram na construção de fazendas que davam suporte à missão... as fazendas relacionam-se diretamente com o papel que os missionários jesuítas tiveram na conquista territorial da América”.4 Na verdade, a presença jesuíta na América se fazia por meio do tripé colégio-aldeamento-fazenda. Nesse caso, o colégio é o do Rio de janeiro, incrustado de modo imponente no alto do extinto morro do Castelo, centro da cidade do Rio; o aldeamento era o de São Pedro do Cabo Frio e a fazenda, dentre outras pertencentes aos padres da Companhia de Jesus na região, vamos nos ater apenas a sesmaria onde os jesuítas estabeleceram a fazenda de Campos Novos.

3 Macaé hoje não faz parte da região dos Lagos, mas no período colonial fazia parte das capitanias de cabo Frio e depois, da Paraíba do Sul.
4 GESTEIRA, Heloisa Meireles e TEIXEIRA, Alessandra dos Santos. As fazendas jesuíticas em Campos dos Goitacazes: práticas médicas e circulação de idéias no Império português, séc. XVIXVIII. Clio, Revista de Pesquisa Histórica. N. 27-2, 2009, p. 130.

A fazenda de Campos Novos
Embora a sesmaria tenha sido doada aos padres inacianos em 1630, eles só começaram a levantar a fazenda no final do século. Provavelmente a fazenda surgiu de queimadas para facilitar a derrubada da mata nativa e dar lugar a gramíneas que serviriam de pastagem e a chamaram-na de Campos Novos para diferenciá-la da fazenda de Campos dos Goitacazes. A igreja estabelecida no local foi consagrada a Santo Inácio, militar espanhol canonizado em 1622 e fundador da Companhia de Jesus. Esta possuía um altar central e nele estava colocada a imagem do dileto fundador, cuja lenda reza guardou a carta deixada pelos jesuítas doando a fazenda aos moradores locais. Nos altares laterais estavam colocadas as imagens de Nossa Senhora da Conceição com o menino Jesus, de São José e de outros santos ou santas. Além dos crucifixos, objetos sagrados e de uma “pia batismal de pedra mármore movediça”, também havia grande quantidade de roupas para as imagens e para os celebrantes dos ofícios religiosos, bem como várias toalhas, alfaias sagradas e cortinas de tecidos e cores variadas. 5
Do ponto de vista econômico, sua produção, como era peculiar às fazendas jesuíticas, era voltada principalmente para a criação de gado e alimentos. Mas também havia uma grande exploração econômica de madeiras, retiradas de suas matas e enviadas para o Rio de Janeiro. Em 1707 a fazenda possuía cerca de 1.500 cabeças de gado e em meados deste mesmo século este número não havia sofrido considerável mudança. Em 1721, o padre Antonio Cardozo, prepósito da província do Brasil, estava em Lisboa e foi intimado a prestar algumas informações sobre as questões fundiárias nesta região. Por suas informações fica-se sabendo que de acordo com o padre, as terras de campos Novos eram “alagadiças e inúteis na maior parte para a lavoura”.6
No entanto, a Ordem era dotada de espírito empreendedor e de vários membros com elevado grau de conhecimento técnico em várias áreas do conhecimento, como a hidráulica, por exemplo. Talvez pela experiência obtida em Santa Cruz, uma outra fazenda de terras alagadiças e não muito distante de Campos Novos, onde foram feitas várias obras de drenagem e contenção
de fluxos de água, os padres estavam aptos a mudar a situação da propriedade. Alguns anos depois, iniciaram obras de drenagem de lagoas e abriu-se um canal para escoar a produção da fazenda, tal como em Santa Cruz. Em 1726, o governador do Rio de janeiro, Luiz Vaía Monteiro apresentava esta obra feita pelos inacianos como um modelo a ser seguido em uma situação parecida na cidade carioca.7
De acordo com Serafim Leite, citando informação prestada por algum jesuíta que esteve na fazenda, em 1741 ela ainda “não tinha chegado a última perfeição, mas nos seus vastíssimos campos poderiam pastar mais de 20.000 cabeças de gado.” 8 Estas previsões otimistas nunca chegaram a se concretizar. Em 1759, quando se encerra a fase jesuítica da fazenda, havia 1367 cabeças de gado e 19 gansos distribuídos em nove currais. Alguns anos depois, em 1775 houve uma sensível diminuição: havia apenas 1159 cabeças de gado distribuídas por oito currais. 9

5 Arquivo do Museu do Ministério da Fazenda. Documentos relativos à fazenda Campos Novos e Campos dos Goitacazes. Códice: 85.20.49.
6 LAMEGO, Alberto. Macaé a luz de documentos inéditos. In: Anuário Geográfico do Estado do Rio de Janeiro, IBGE , n.11, 1958, p. 31.
7 LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Tomo IV. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro; Lisboa: Livraria Portugália, 1945. p.93.
8 Idem
9 Arquivo do Museu do Ministério da Fazenda. Documentos relativos à fazenda Campos Novos e Campos dos Goitacazes. Códice: 85.20.49.

A história da fazenda de Campos Novos está intimamente ligada à história da ordem jesuíta no Brasil, desse modo, um dos grandes marcos na história da fazenda é dado quando a política pombalina de eliminação dos inacianos tem seu êxito. No ano de 1759, Pombal decretou a expulsão dos jesuítas de todo o Império português e o subseqüente seqüestro dos seus bens. De fato, este seria o primeiro passo no caminho da extinção total da ordem. Uma vez que os jesuítas foram forçados a abandonar suas posses, houve a necessidade de que elas passassem por um processo de inventário e avaliação, a fim de determinar quanto a Coroa poderia auferir com a venda destas em leilão.

Cada braça de terra foi avaliada em quinhentos réis e sua avaliação final foi da ordem de seis contos, setecentos e cinqüenta mil reis. No dia 13 de outubro de 1778 as terras e tudo mais que pertencia à fazenda foi arrematado pelo negociante que vivia na Praia de Dom Manuel, na cidade do Rio de Janeiro, Manoel Pereira Gonçalves, por 24:518$420 (vinte quatro contos, quinhentos e dezoito mil e quatrocentos e vinte reis). Estavam incluídos na transação os imóveis, as ferramentas, o gado, as plantações e os cativos. 10
Existe pouca documentação disponível sobre esta fazenda e sobre seu cotidiano.
Depois de Serafim Leite, que realizou uma gigantesca análise sobre as atividades econômicas dos jesuítas no Brasil buscando demonstrar que os bens materiais pertencentes à Ordem eram essenciais para a manutenção do projeto catequético e, portanto, colonial, a maior parte dos autores que de uma forma ou outra tratou sobre estas terras o fizeram com base em seus escritos.
Se sobre o período em que a fazenda foi administrada pelos jesuítas há uma escassa documentação, a situação muda um pouco quando se busca conhecê-la no período posterior a expulsão dos religiosos. Com a ordem expulsa, realizado o confisco de todos os bens e elaborada a série de documentos para averiguar quais seriam estes bens, a partir de 1759 tem início a produção de alguns documentos que permitem inferir – pelo menos em parte- como era o cotidiano nesta e em outras fazendas que pertenciam aos inacianos. Tratam-se dos inventários e autos de seqüestros.

10 Arquivo do Museu do Ministério da Fazenda. Documentos relativos à fazenda Campos Novos e Campos dos Goitacazes. Códice: 85.20.49

Através destes inventários é possível identificar uma série de características das propriedades e de sua mão-de-obra. As terras foram medidas e avaliadas de acordo com a qualidade, o tamanho e a produção agrícola e animal que eram capazes de gerar. Além disto, entraram nos inventários e nas avaliações, as ferrarias, as carpintarias, os materiais de cobre e prata, as casas de vivendas, as casas de caldeira e de purgar, as casas de fazer aguardente, enfim, qualquer serventia que fosse encontrada. As avaliações das fazendas e dos engenhos dependeram muito das condições em que estavam as terras, a produção, os bens e os cativos. Os bens das igrejas foram listados na maior parte das vezes, mas não entraram no cômputo geral dos inventários porque segundo as normas, tais bens pertenciam ao povo que utilizava a igreja.
Para esta fazenda em especial, há dois inventários. Um foi feito imediatamente após a ordem de expulsão. O documento é datado de 22 de novembro de 1759 e o segundo conjunto documental é de 30 de junho de 1775. Há, portanto, um espaço de 12 anos entre um e outro. Tempo suficiente para que algumas mudanças pudessem ser sentidas na fazenda.

Tabela n. 1 – Famílias cativas da fazenda de Campos Novos
Tipologia
1759
1775
Famílias Nucleares
38 (65%)
59 (73,5%)
Viúvas
15 (26%)
11 (14%)
Viúvos
5 (9%)
2 (2,5%)
Famílias com 3 gerações
0
2 (2,5%)
Famílias só com a mãe
0
6 (7,55%)
Totais
58 (100%)
80 (100%)

Um dos quesitos de maior destaque nestes inventários, e o de Campos Novos não foge a regra, é a questão da escravaria. Os cativos são sempre apresentados formando famílias nucleares. Cada indivíduo recebe um valor de acordo com suas características físicas, idade, sexo, ocupação ou aptidão. Na fazenda Campos Novos em 1759 havia 188 escravos. Destes, 92 eram do sexo masculino (48,94%) e 96 (51,06%) eram do sexo feminino. Este total de menos de 200 escravos estava distribuído em 50 senzalas, dando uma média de menos de quatro cativos por senzala.
No inventário de 1775, estes números são um pouco diferentes. No espaço de 12 anos entre um inventário e outro nasceram cerca de 11 a 12 crianças anualmente. O número total de cativos havia subido para 323 cativos: 150 homens (46,44%) e 173 mulheres (53,56%), distribuídos por 53 senzalas cobertas de palha velha. Estas mudanças na população elevaram a média de moradores para pouco mais de seis por senzala. Parece que, além da moradia, a saída dos religiosos interferiu na organização das famílias. Em primeiro lugar, os casais continuaram tendo seus filhos, mesmo que não soubessem exatamente o que iria acontecer com suas vidas.
Mas mais do que isso, a organização familiar tornou-se mais complexa, apareceram no inventário duas famílias com mais de duas gerações e encontram-se seis mulheres que Estavam a criar seus rebentos sozinhas, algo que não apareceu no primeiro inventário. Todavia, destas, três casos eram de pais que haviam fugido e estavam na cidade ou em quilombos na região. Os outros três casos os pais não puderam ser identificados, mas em todos as crianças eram menores de 10 anos. Portanto, já nasceram sem a presença dos jesuítas.
O percentual de viúvos caiu para menos de um terço e o de viúvas reduziu quase pela metade, o que significa que as segundas núpcias estavam sendo mais efetuadas. Ao se comparar o que se viu na vida dos escravos de Campos Novos com o que se sucedeu aos cativos da fazenda de São Cristóvão, que foram todos vendidos em praça pública no Rio de Janeiro e suas famílias, destroçadas, parece que os escravos de Campos Novos preferiram acreditar que continuariam na fazenda assim como os escravos de Santa Cruz ou da fazenda mais próxima, de Santa Anna de Macaé que seria vendida apenas no ano seguinte.
Comparando os dois inventários, é possível perceber alguns dados interessantes com relação à formação destas famílias cativas e também os limites deste tipo de fonte. Um exemplo claro disto é a própria organização dos dados. No inventário de 1759 as famílias foram arroladas na seguinte ordem: primeiro, os casais, depois os viúvos seguidos das viúvas. Os rapazes de serviço e as raparigas vieram depois e foram seguidos pelas crianças masculinas e as femininas.
No caso das crianças houve a preocupação em listar um de seus pais. Ao cruzar com a listagem dos casais, pode-se formar as famílias. Entretanto, no caso das raparigas e dos rapazes não há como relacionar todos com os casais. Apenas alguns nomes puderam ser identificados como filhos ou filhas destes.
No inventário de 1775, as famílias foram arroladas juntas. Isto facilitou a percepção sobre sua organização. Pelos dados do inventário de 1759 não é possível afirmar que não houvesse casos de famílias com três gerações, mas isto somente fica muito claro no seguinte. Por ele, identifica-se que em algumas famílias começaram a nascer crianças sem que as mães fossem
legalmente casadas e sem que o nome do pai aparecesse de alguma forma. Este é o caso da família de Manoel Trindade casado com Barbara Vieira, uma escrava aleijada do braço esquerdo.
O casal possuía oito filhos com idades variando de vinte e cinco anos a uma criança de peito. A filha mais velha, Andreza aparece listada com duas crianças. Uma de cinco anos e outra de dois anos e meio. Pode ser que fossem frutos de uma relação não oficial, uma vez que os padres já não estavam na fazenda.
Concluindo, pode-se afirmar que através da análise do inventário desta fazenda, é possível conhecer um pouco mais sobre o processo de ocupação do litoral norte fluminense e o desenrolar das relações socioeconômicas entre agentes históricos de diferentes categorias sociais.
Tratando-se de uma área importante do ponto de vista estratégico, esta análise contribui na composição do mosaico que constitui o processo de formação da capitania do Rio de Janeiro no qual os jesuítas, seus índios e seus escravos tiveram papel decisivo.

Carlos Engemann*
Marcia Amantino**
* Professor do programa de Pós Graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira
** Professora do programa de Pós Graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira



História do Museu Imperial


Em 1822, d. Pedro I, viajando em direção a Vila Rica, Minas Gerais, para buscar apoio ao movimento da Independência do Brasil, encantou-se com a Mata Atlântica e o clima ameno da região serrana. Hospedou-se na Fazenda do Padre Correia e chegou a fazer uma oferta para comprá-la. Diante da recusa da proprietária, d. Pedro comprou a Fazenda do Córrego Seco, em 1830, por 20 contos de réis, pensando em transformá-la um dia no Palácio da Concórdia.
 
Fazenda do Padre Correia - imagem atribuída a Friederich Sellow

A crise política sucessória em Portugal e a insatisfação interna foram determinantes para o seu regresso à terra natal, onde ele viria a morrer sem voltar ao Brasil. A Fazenda do Córrego Seco foi deixada como herança para seu filho, d. Pedro II, que nela construiria sua residência favorita de verão. A construção do belo prédio neoclássico, onde funciona atualmente o Museu Imperial, teve início em 1845 e foi concluída em 1862.
Para dar início à construção, d. Pedro II assinou um decreto em 16 de março de 1843, criando Petrópolis. Uma grande leva de imigrantes europeus, principalmente alemães, sob o comando do engenheiro e superintendente da Fazenda Imperial, major Julius Friedrich Koeler, foi incumbida de levantar a cidade, construir o palácio e colonizar a região.
Construído com recursos oriundos da dotação pessoal do imperador, o prédio teve o projeto original elaborado pelo próprio Koeler e, após seu falecimento, foi modificado por Cristóforo Bonini, que acrescentou o pórtico de granito ao corpo central. Para concluir a obra, foram contratados importantes arquitetos ligados à Academia Imperial de Belas Artes: Joaquim Cândido Guillobel e José Maria Jacinto Rebelo, com a colaboração de Manuel Araújo Porto Alegre na decoração.
O complexo foi enriquecido, ainda na década de 1850, com o jardim planejado e executado pelo paisagista Jean-Baptiste Binot, sob orientação do jovem imperador. O piso do vestíbulo, em mármore de Carrara e mármore preto originário da Bélgica, foi colocado em 1854, destacando-se também os assoalhos e as esquadrias em madeiras de lei, como o jacarandá, o cedro, o pau-cetim, o pau-rosa e o vinhático, procedentes das diversas províncias do Império. Os estuques das salas de jantar, de música, de visitas da imperatriz, de Estado e do quarto de dormir de Suas Majestades contribuem para dar graça e beleza aos ambientes do Palácio, um dos mais importantes monumentos arquitetônicos do Brasil.


D. Pedro II adorava a sua residência de verão e a cidade que se formou ao redor. Suas prolongadas temporadas em Petrópolis criaram uma atmosfera favorável para a prática de veraneio ou vilegiatura, como se dizia à época, iniciada pelo próprio monarca e pela aristocracia do Império, seguida pelos presidentes e políticos da República e cultivada por muitos até hoje.
Com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, houve o banimento da família imperial, que se exilou na Europa. Em dezembro do mesmo ano, a imperatriz d. Tereza Cristina faleceu em Portugal e, dois anos depois, em 1891, d. Pedro II faleceria em Paris.
Entre 1893 e 1908, a princesa Isabel, como única herdeira – sua irmã, a princesa Leopoldina, havia falecido em 1871 –, alugou o Palácio de Petrópolis para o educandário Notre Dame de Sion. Em seguida, o colégio São Vicente de Paulo funcionou no prédio entre 1909 e 1939. Nesse período, grande parte do mobiliário e demais objetos foram transferidos de local e de propriedade.

Capela do Colégio Notre Dame de Sion construída ao lado do antigo Palácio


Colégio São Vicente de Paulo

No São Vicente de Paulo, estudava um apaixonado por História: Alcindo de Azevedo Sodré. Graças a ele, que sonhava acordado com a transformação do seu colégio em um museu histórico, o presidente Getúlio Vargas criou, em 29 de março de 1940, pelo Decreto-Lei n° 2.096, o Museu Imperial.
A partir de então, uma equipe técnica liderada pelo próprio Sodré, que se tornaria o primeiro diretor do Museu, tratou de estudar a história da edificação e localizar peças pertencentes à família imperial em diferentes palácios para ilustrar o século XIX e o dia a dia de membros da dinastia dos Braganças. Importantes colecionadores nacionais juntaram-se ao projeto, doando objetos de interesse histórico e artístico.
Como resultado, o Museu Imperial foi inaugurado em 16 de março de 1943 com um significativo acervo de peças relativas ao período imperial brasileiro. Ao longo das últimas sete décadas, acumulou expressivos conjuntos documentais, bibliográficos e de objetos graças a generosas doações de centenas de cidadãos, totalizando um acervo de quase 300 mil itens. 

 Galera, vale a pena uma visita!!!